I
Estava à espreita há dois dias. Dois dias sem comer e sem dormir, penas parado sob a árvore, esperando.
Queria estar em outro lugar, fazendo outra coisa e finalmente sendo pago. Um mercenário que não recebia era o quadro mais ridículo que exista por toda a terra de Nonfati.
Mas Matinel não tinha outra opção. Era o mercenário lembrado por muitos que não podiam pagar e indicado por outros que precisavam dos seus serviços, mas não tinha muita vontade de se desfazer de algumas moedas de ouro. Não cobrava caro, não era capaz de trair seus patrões e nem de sair cobrando, como faziam todos os seus colegas de profissão.
Assim era o mercenário mais fraco de toda Nonfati , porque mal tinha o que comer; o mais mal vestido e o que tinhas as armas mais imprecisas. Entretanto, sempre cumpria suas tarefas por mais que isso lhe causasse dor de cabeça.
Estava parado há dois dias. Havia consumido os dez por cento do pagamento com alimentos e uma nova espada e passava o seu tempo de ócio esperando imaginando o que faria quando recebesse o resto do pagamento.
II
Quando estava finalmente a ponto de ser vencido pelo sono, ouviu o som de passos perto dos arbustos que cercavam a árvore onde estava escondido. Levantou-se pronto para atacar, com a espada em punho.
Jamais esquecia uma descrição. Daquela vez tinha que matar um homem manco e cego do olho esquerdo, e era exatamente quem se aproximava dali.
O homem não oferecia nenhum perigo físico para Matinel, mas se falasse o que soubesse para o senhor daquelas terras, talvez provocasse uma guerra em que pereceriam muitos inocentes, pelo menos foi isso que seu patrão lhe garantiu.
Sem dizer uma palavra, o mercenário investiu contra o homem, que conseguiu aparar o golpe da espada com um pedaço de madeira que usava como bengala.
- Eu sabia que ele mandaria alguém. O que você quer para me deixar em paz?
- Nada. Tenho que cumprir minha missão.
- Dez moedas de ouro. Falou o homem, olhando o estado deplorável em que se algoz estava.
Aquele valor o dobro do que receberia se matasse o homem. Mas Matinel não era capaz de trair quem lhe contratava. Tinha uma espécie de código moral, por mais irônico que isso fosse em se tratando de um assassino.
Matinel investiu contra sua vítima com força suficiente para quebrar a madeira que ela usava para se defender.
- Por favor.
Antes que eu o homem lhe implorasse de novo, estava com a cabeça decepada e Matinel todo sujo de sangue ainda lhe revistou. Não encontrou nenhum sinal das moedas prometidas.
- Um caloteiro a menos.
Levantou-se rapidamente saiu dali levando a cabeça do pobre coitado.
III
Duas horas depois Matinel estava diante de seu empregador com a cabeça de sua vítima.
- Tudo pronto.
O homem levou um susto quando viu aquele guerreiro magro, com as roupas sujas de sangue e com a cabeça de seu inimigo nas mãos.
- Eu não esperava que fosse tão rápido.
- Fosse pediu que fosse rápido.
Olhando para aquela cabeça com os lábios entreabertos o homem tremeu. Claro que ele estava aliviado por ter se livrado do inimigo, mas tinha gastado o dinheiro do pagamento comprando um cavalo novo e pagando outras dívidas.
Pegou meia moeda no bolso e lamentando-se por ter que se livrar dela entregou a Matinel.
- Eu me enganei. Ele não precisava morrer.
- Agora é tarde.
- Mas você matou um amigo meu. Eu não vou lhe pagar por isso.
Matinel só precisou de uma fração de segundos para colocar a espada no pescoço do caloteiro.
- O trato não foi esse.
O homem já estava prevenido contra Matinel. Sabia que ele não era capaz de trair quem contratava seus serviços, mesmo que não fosse pago.
- Por favor, eu não tenho mais dinheiro. Fui assaltado
- Não é problema meu.
O homem sabia que deveria se manter firme em sua lamúria e assim teria o desconto do mercenário.
- Pelo amor de Deus.
Por um instante Matinel teve vontade de decepar mais uma cabeça. Mas seguiu seus preceitos, aceitou a meia moeda de gratificação e saiu da casa do traidor.
- Não temos mais um contrato, não somo amigos. Cuidado quando me encontrar da próxima vez. Disse o mercenário, jogando a cabeça decapitada nos pés do seu ex-patrão, num gesto teatral que ele torcia em vão para fazer algum efeito.
O homem teve que se controlar para não rir antes que Matinel se afastasse o suficiente. Estava contente por ter se livrado de quem lhe ameaçava por um preço irrisório que nem levou em conta a ameaça do mercenário.
IV
Enquanto andava carregando sua espada suja, Matinel remoia a vontade de voltar e dar cabo do caloteiro. Mas sabia que não faria nada daquilo. Então era melho se acalmar, esconder-se para ninguém desconfiar de suas roupas sujas e procurar um ´para dormir, já que não tinha um lugar para se abrigar.
Talvez voltasse para a árvore onde tinha permanecido por dois dias. Estava acostumado a dormir sob ela.
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