quarta-feira, 30 de novembro de 2011

No Mar de Pajuçara

Mergulhar no mar de Pajuçara. Houve um tempo que isso não era um crime. Duzentos anos atrás esse era um prazer comum, mas isso foi antes do grande maremoto e das águas dos oceanos não estarem contaminadas com o expurgo das antigas usinas nucleares. Cristiano nasceu trinta anos depois do acidente e nunca tinha visto ninguém tomar banho no mar. Em cidades costeiras, como Maceió, construíram grandes piscinas que limpava uma parte da água do mar e permitia que as pessoas se divertissem naquele pequeno espaço. Ele não devia estar ali. Deveria estar caçando andróides extraviados, ou impedindo que outras pessoas fizessem o que ele estava fazendo. Mas isso não importava, não no seu aniversário. Sabia que estava sujeito há câncer por estar tomando banho ali, mas achava que havia vivido o suficiente, pelo menos era assim que pensava nos últimos trinta anos. Cento e setenta anos vivendo do coquetel fornecido gentilmente pelo governo eram o bastante. Eles controlaram a doença e a velhice, mas a morte não foi vencida como esperava, não havia imortais. Por isso as pessoas continuavam perdendo quem amavam e com o tempo muitos ficavam sós, sem motivos para continuarem numa existência tão longa. Em mais um aniversário só, Cristiano gostaria de tomar a decisão que muitos tomavam e que era extremamente proibido. Mas tudo o que conseguia era tomar banho na praia. Bastaram apenas dez minutos para que dois policiais chegassem até uma distância segura e falassem pelo alto-falante. - Por favor, senhor. Saia da água. O senhor está correndo risco de morte. Outra pessoa teria obedecido. A cada ano as pessoas se tornavam mais obedientes. Graças a isso o mesmo governo estava no poder há mais de duzentos anos e não havia ninguém para questioná-lo. Todo mundo só queria viver pra sempre e sem preocupar com muitas coisas. - Por favor, senhor... Cristiano apenas os ignorou. A polícia nem usava mais armas, não iriam fazer nada contra ele se o banho continuasse. Ele sabia disso porque foi assim que ele foi treinado, e normalmente o que estava no manual era o bastante. Os policiais podiam pedir reforços e agir mais energicamente, mas naquele fim de tarde haveria um jogo de futebol e ninguém queria perder a final. Voltou a ficar sozinho enquanto era observado de longe por cidadãos indignados com aquela atitude. Ninguém deveria desobedecer ao grande governo. Cristiano gostaria de ser punido de forma letal por aquele crime. Cento e setenta anos eram mais do que ele gostaria de suportar. O mundo apenas ficava mais velho e menor. E ele, sozinho. A tarde se foi e a água ficou mais fria. Ele saiu do mar, vestiu-se e foi escoltado por dois andróides para a delegacia. No caminho se desejou um feliz aniversário, e o presente de poder descansar daquela vida. Talvez o mar tenha trazido a última esperança possível para um lugar onde não acontecia mais nada.

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