quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Resgate na Caatinga
I
Estava a oitenta quilômetros por hora numa estrada de barro. Apesar de não ser a maior velocidade que havia corrido em um veículo, era a primeira vez que fazia aquilo fora de uma estrada alta, e num veículo que tocava o chão. Incomodava o fato de estar em um veículo de combustão e com pneus. Se não fosse um policial em uma missão oficial, estaria violando pelo menos duas leis.
A missão oficial em questão era o que ele considerava perda de tempo e recursos do estado: recuperar um andróide. Não entendia porque gastar quase o mesmo valor de uma máquina daquelas, apenas para recuperar uma perdida. Por ele registrava a perda como furto, e o proprietário que recorresse ao seguro. Mas desde que a última lei aprovada pela ONU elegeu aqueles modelos como uma quase-vida, o caso tinha que ser tratado como seqüestro.
Para piorar o quadro, a busca tinha que ser feita em plena caatinga, no quase deserto sertão nordestino.
Desde que as torres energéticas tinham sido instaladas, tornando a região mais rica do que muitos países europeus, as pessoas tinham deixado os sítios e fazendas para se concentrarem nas cidades. Em conseqüência disso, a natureza tomou de volta o seu lugar e muitas das pequenas cidades viraram florestas protegidas.
Agora Cristiano estava em uma trilha que se perdia na floresta e rezando para que aquela camioneta 2015 não quebrasse ali, não haveria ninguém para consertar.
- Você vai ter que descer do carro e entrar na mata a pé. Falou a voz no rádio. – Lembre-se de desligar a chave e fechar os vidros. Puxe a trava de mão e leve a chave com você. Não se esqueça...
- Eu li o manual, Antônio. Só acho uma perda de tempo o que estou fazendo.
Parou o carro próximo as ruínas de uma parede de que tinha sido uma capela. Ainda podia ler as palavras Paróquia de São Francisco, pelo menos era isso que ele pensava que estava escrito, mas era difícil saber, afinal aquilo tinha sido escrito umas quatro ou cinco reforma gramatical atrás.
Entrou na mata no que imaginou ser uma picada. Viu algumas pegadas que pareciam humanas e outras que ele não conhecia. Consultou mais uma vez o cubo vermelho, que continuava indicando que ele estava no lugar certo.
- Espero não encontrar nenhum touro selvagem. Pensou enquanto enfrentava os cactos e outras plantas espinhentas. Seria bom acabar aquilo antes que o uniforme se desfizesse com os arranhões.
Felizmente não precisou andar muito. Logo à frente havia um juazeiro cercados pelo que sobrou de bancos de cimento. Em cima de um dos bancos duas pessoas transavam sem se preocupar com a cobra que estava por perto e mungido do que deveria ser uma vaca. Ele havia encontrado o avo.
II
Cristiano ficou alguns minutos vendo o casal se divertindo. Se não estivesse no meio da caatinga e ele não tivesse que recuperar o andróide, sairia dali rapidinho. Não tinha a mania de observar certas coisas.
Infelizmente seu cubo vermelho indicava que aquele era mesmo o andróide tido como seqüestrado, graças aos novos padrões para tipificar crimes. O cubo estava errado ao indicar que se tratava de um homem branco, entre trinta e quarenta anos e pesando uns cem quilos. O maldito computador havia falhado mais uma vez em traçar um perfil psicológico. Ele iria desabilitar aquela função assim que abasse com aquilo.
- Pare com isso, senhora, Você está presa por seqüestrar essa peça.
Os dois se levantaram nus e assustados e Cristiano odiou como a nova série de quase-vivos (assim eles eram chamados agora) imitava os seres humanos nas mínimas imperfeições.
- Vistam-se venham comigo. Ele será levado de volta para o dono.
- Não iremos com você. Falou o andróide. A mulher estava assustada demais para falar.
-Não existe outra opção.
- Nós nos amamos. Você quer nos prender porque acha que ele me roubou e que eu sou uma máquina que sem direito a escolhas. Mas não sou. Eu posso amar e odiar. Sou quase um ser humano. Tenho direito a escolhas.
Cristiano achava aquilo tudo ridículo. Mas estava farto de correr atrás de andróides extraviados. Ser enviado para a caatinga era a primeira vez, mas aquela era a chance de fazer com que aquilo não se repetisse.
- Afastem-se daqui. Vocês não devem ser encontrados nos próximos dias.
- Não voltaremos à cidade. Garantiu o andróide.
- Melhor pra você.
O caminho de volta foi tão difícil quanto a ida. Cristiano lamentava ter deixado o andróide inteiro, mas com corte ele seria destruído por um touro selvagem ou seus circuitos derreteriam no calor do sertão. Lamentava pela mulher ter que sofrer um destino igual, mas ela tinha feito sua escolha.
Entrou no carro e deu partida, seguindo exatamente o que dizia o manual. Com um pouco de sorte aquela seria a última vez que andava em um carro com motor a explosão e dirigia em uma estrada antiga.
Agora era chegar em casa, dormir e rezar para não ser chamado nos próximos três dias.
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