Quando lhe João trabalhava todos os dias quebrando pedras. Um trabalhando maçante, mas que ele fazia com todas as suas forças dia após dia, sem se importar com o tempo nem com mais nada, era um operário incansável.
O som da picareta era música para seus ouvidos, o brilho do metal já gasto era a mais bela imagem que ele conhecia,.
De tanto se dedicar ao seu trabalho ganhou o apelido de João das Pedras, mas ele não atendia por esse nome quando estava trabalhando, aliás não atendia por nome nenhum quando estava concentrado em quebrar suas pedras.
Só vivia para seu trabalho. Não tinha tempo para si, nem para a família, nem para amigos. perguntaram um dia porque ele trabalhava ali, porque não procurava algo melhor, porque se matava quebrando pedras, ele nem ouviu a pergunta, apenas o som de sua picareta interessava.
E assim prosseguia na sua rotina. João das Pedras em sua rotina incansável, nem reparava no mundo em sua volta, simplesmente quebrava pedras. Se um filho estava doente, ele quebrava pedras;. se tinha uma festa, quebrava pedras; se morria alguém, quebrava pedras. Se o mundo explodisse, ele estaria quebrando pedras.
Quebrava pedras e tinha sempre mais e mais para quebrar, sabia (e torcia por isso) que jamais acabaria.
Um dia ele voltou pra casa e a encontrou vazia. Estranhou, mas estava cansado demais para perguntar alguma coisa. Dormiu.
Quando amanheceu ele lembrou de chamar pela esposa e pelos dois filhos:
- Maria, Pedro, Pedrita... Ninguém respondeu. Ele iria chamar de novo, mas estava atrasado para seu trabalho.
Quando voltou para casa a história se repetiu, e no dia seguinte também, mas em sua mente ele só via suas pedras. Somente uma semana depois, foi que ele percebeu que estava sozinho, mas tinha que continuar seu trabalho apesar de tudo.
E o mundo continuou enquanto ele quebrava pedras e só tinha como recompensa o cansaço e uns poucos trocados no final do mês, que ele nem se importava em gastar ou não. Comparava alguma coisa para comer e juntava para realizar seu grande sonho: comprar uma nova picareta.
E assim o tempo passou. João simplesmente quebrava cada vez mais pedras.
Um dia ele ficou doente e o diagnóstico foi pedra nos rins, mas ele estava quebrado demais para se tratar e a solução foi quebrar as pedras com ainda mais força.
Um dia ele sofreu um acidente: uma grande pedra caiu em sua cabeça e João passou muitos dias em casa, sozinho, deitado em sua cama de pedra e comendo um pão duro como as pedras que ele quebrava.
Então ele morreu.
Enterraram-no num túmulo na mesma pedreira onde ele passara a vida trabalhando. Em sua lápide escreveram: “Aqui Jaz um homem que tinha um coração de pedra”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário