Acordou-se cedo para olhar a lagoa. Não era nem cinco da manhã quando ele já estava enfrentando o frio da alvorada e observando aquelas águas que acompanharam sua vida por tanto tempo, aquelas águas que sonhava que o levariam para longe do pequeno povoado onde morava.
Sílvio estava com vinte e nove anos e desde o quinze sonhava com o dia de partir dali. Amava a natureza, amava aquela lagoa em que tinha brincando durante toda a sua infância e sobretudo os peixes que tinham sustentado sua família por tanto tempo. Mas não queria seguir a profissão de seu pai. Jamais quis. Seu sonho era sair de casa, de seu povoado e ganhar o mundo.
Mas desde os quinze anos que possuía sua canoa, desde os quinze anos que seguia os passos do pai sem querer e sem coragem de contar a ele. Sempre esperando o dia em que não estaria mais ali.
Durante catorze anos ele esperou pela sua grande chance. Vivendo uma vida de espera e frustrações. Dizia que ficaria ali até quando estivesse tudo pronto para sua partida, mas sempre protelava esse dia, sempre tinha um motivo pra ficar. Engolia sempre o seu sonho, olhava a lagoa, se resignava e seguia em frente, odiando sua vida e vendo as águas correrem. Nunca tivera coragem de seguir realmente seu sonho, por que seu medo era maior que sua obstinação. Sempre tivera medo de decepcionar a família e preferia ver a lagoa e viver cada dia mais frustrado e decepcionado consigo mesmo.
Já estava começando a acreditar que tudo seria assim para sempre quando as coisas começaram a mudar.
Era uma terça-feira quando ele viu uma mulher nadando nua na lagoa. Já estava acostumado com certos espetáculos naquelas águas. Não era raro flagrar os turistas usando drogas e transando nas margens da lagoa, como se a natureza quase ainda selvagem os convidasse a transgredirem a lei. Mas jamais vira uma mulher nadar nua e sozinha naquelas águas. Aquele lugar não era tão pacato a ponto dela não correr nenhum perigo com aquele ato.
Teve vontade de chamá-la, mas resolveu não fazer nada. Apenas admirou o espetáculo. E era mesmo um grande espetáculo. A ruiva de corpo escultural era capaz de fazer com que todos os pescadores do lugar ficassem estáticos como ele, durante horas.
Mas foi ela quem o chamou.
- Vem. A água está uma delícia.
Como resistir aquele convite? Ele tirou sua bermuda e entrou imediatamente na água.
Como se o conhecesse a mulher o abraçou e beijou todo o seu corpo, livrando-lhe de seu calção de praia. Sílvio, surpreso e totalmente envolvido com a situação, deixou que ela fizesse o que queria e logo os dois estavam fazendo na água o que ele tanto observara os turistas fazendo.
O encontro casual logo se transformou em um estranho namoro.
Sílvio jamais soube o nome dela e ninguém nunca a viu. Mas isso não incomodava muito. Passara a vida toda isolado demais para se importar com o mistério de sua namorada.
Envolveu-se com ela como jamais pensaria que se envolveria com alguém. Todo o medo que tinha de se entregar desapareceu nos braços daquela mulher. Todas as dúvidas e hesitações que tivera tornavam-se inúteis perto dela.
E ele estava cada vez mais apaixonado.
Por isso estava ali no amanhecer, rezando para que ninguém o encontrasse, embora soubesse que naquele horário seria muito difícil isso acontecer.
No dia anterior ela o tinha convidado a fugir. Partiriam definitivamente dali para um lugar muito maior e ele teria uma vida maior que jamais teve. Daquela vez ele não tinha motivos para adiar sua partida. Não tinha mais motivos para ficar.
Agora ele estava à beira da lagoa esperando pela sua misteriosa namorada. Como ela havia prevenido estaria ali às cinco e ponto e ele não precisava levar consigo nada além de sua canoa.
Ele olhava para a lagoa com lágrimas nos olhos. Finalmente, depois de catorze anos ele estava partindo. Nada aconteceu como ele sonhava. Seus planos se foram com as águas da lagoa, mas as águas lhe trouxeram um plano novo.
Estava nervoso e morrendo de frio quando a mulher apareceu ao seu lado. Era a primeira vez que ele a via pisando em terra firme. Como nas outras vezes ela estava completamente nua e olhava para ele fixamente, como um olhar que ele não sabia exatamente o que significava.
- Está pronto?
- Estou.
Sem falar mais nada ela entrou na canoa e esperou que ele fizesse o mesmo.
Sílvio tirou suas roupas e entrou na canoa também. Não podia vacilar daquela vez.
E assim seguiram viagem. Ela sentada olhando para o sol ele remando monotonamente, em direção ao ponto onde a lagoa encontra o mar. Não sabia exatamente para onde estava indo, mas confiava naquela mulher bela e misteriosa que viajava ao seu lado.
Sílvio nunca mais foi visto por ninguém daquele povoado. Seu pai encontrou horas depois suas roupas abandonadas na margem da lagoa e alguns pescadores juraram que o tinha visto afastando-se dos arrecifes que embelezaram a pela costa marítima daquele lugar. Mas ninguém pode provar nada.
Silvio ganhou o mar e talvez tenha realizado seu sonho de uma maneira inesperada. O fato é que não estava sozinho e finalmente estava longe da lagoa e de sua vida de frustrações.
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