Palhaços sem graça nas ruas.
Piadas ruins se repetem.
E Há quem aplauda de pé.
Enquanto eles se divertem.
Palhaços se revezam no palco.
Em frente de uma plateia inerte.
Que pagam com o preço da fé
O quadro sujo que eles subvertem.
Palhaços de caras limpas chegaram.
Fazendo macabros esquetes.
Pintando um quadro fantástico.
Mostram o que sempre mostraram.
Diante da plateia que se esquece
Do perverso que é o espetáculo.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Em Volta
Olhou em volta.
Procurava algo perdido.
Algo que destruiu com as próprias mãos.
Algo que não voltará.
Olhou em volta.
Em rostos conhecidos.
Mas tudo estava estranho
Agora que sua luz era uma réstia.
Procurou por todos os lados.
Mas era tarde.
Não se pode retornar
Ao ponto antes dos farelos.
Procurava algo perdido.
Algo que destruiu com as próprias mãos.
Algo que não voltará.
Olhou em volta.
Em rostos conhecidos.
Mas tudo estava estranho
Agora que sua luz era uma réstia.
Procurou por todos os lados.
Mas era tarde.
Não se pode retornar
Ao ponto antes dos farelos.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Guarde um Sorriso
Guarde um sorriso.
Para as horas sem graça
Para quando perder a piada.
E todos estiverem rindo
De uma tristeza disfarçada.
Guarde um sorriso.
Um último disfarce.
Para quando estiveres nu.
E todos te apontarem o dedo.
Guarde um sorriso.
Porque é o que podes conservar.
Quando tudo escapar entre os dedos
E tiveres que ocultar as lágrimas
Para as horas sem graça
Para quando perder a piada.
E todos estiverem rindo
De uma tristeza disfarçada.
Guarde um sorriso.
Um último disfarce.
Para quando estiveres nu.
E todos te apontarem o dedo.
Guarde um sorriso.
Porque é o que podes conservar.
Quando tudo escapar entre os dedos
E tiveres que ocultar as lágrimas
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Tu Me Calas
Tu me calas.
Porque não há palavras
Que contenham o amor
E se digo que te amo.
Não te digo nessa frase.
Tudo que deveria dizer.
Tu me calas.
Mas se as palavras se vão.
Aceita este beijo.
Que me cala a boca.
Mas que muito te fala.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Resgate na Caatinga
I
Estava a oitenta quilômetros por hora numa estrada de barro. Apesar de não ser a maior velocidade que havia corrido em um veículo, era a primeira vez que fazia aquilo fora de uma estrada alta, e num veículo que tocava o chão. Incomodava o fato de estar em um veículo de combustão e com pneus. Se não fosse um policial em uma missão oficial, estaria violando pelo menos duas leis.
A missão oficial em questão era o que ele considerava perda de tempo e recursos do estado: recuperar um andróide. Não entendia porque gastar quase o mesmo valor de uma máquina daquelas, apenas para recuperar uma perdida. Por ele registrava a perda como furto, e o proprietário que recorresse ao seguro. Mas desde que a última lei aprovada pela ONU elegeu aqueles modelos como uma quase-vida, o caso tinha que ser tratado como seqüestro.
Para piorar o quadro, a busca tinha que ser feita em plena caatinga, no quase deserto sertão nordestino.
Desde que as torres energéticas tinham sido instaladas, tornando a região mais rica do que muitos países europeus, as pessoas tinham deixado os sítios e fazendas para se concentrarem nas cidades. Em conseqüência disso, a natureza tomou de volta o seu lugar e muitas das pequenas cidades viraram florestas protegidas.
Agora Cristiano estava em uma trilha que se perdia na floresta e rezando para que aquela camioneta 2015 não quebrasse ali, não haveria ninguém para consertar.
- Você vai ter que descer do carro e entrar na mata a pé. Falou a voz no rádio. – Lembre-se de desligar a chave e fechar os vidros. Puxe a trava de mão e leve a chave com você. Não se esqueça...
- Eu li o manual, Antônio. Só acho uma perda de tempo o que estou fazendo.
Parou o carro próximo as ruínas de uma parede de que tinha sido uma capela. Ainda podia ler as palavras Paróquia de São Francisco, pelo menos era isso que ele pensava que estava escrito, mas era difícil saber, afinal aquilo tinha sido escrito umas quatro ou cinco reforma gramatical atrás.
Entrou na mata no que imaginou ser uma picada. Viu algumas pegadas que pareciam humanas e outras que ele não conhecia. Consultou mais uma vez o cubo vermelho, que continuava indicando que ele estava no lugar certo.
- Espero não encontrar nenhum touro selvagem. Pensou enquanto enfrentava os cactos e outras plantas espinhentas. Seria bom acabar aquilo antes que o uniforme se desfizesse com os arranhões.
Felizmente não precisou andar muito. Logo à frente havia um juazeiro cercados pelo que sobrou de bancos de cimento. Em cima de um dos bancos duas pessoas transavam sem se preocupar com a cobra que estava por perto e mungido do que deveria ser uma vaca. Ele havia encontrado o avo.
II
Cristiano ficou alguns minutos vendo o casal se divertindo. Se não estivesse no meio da caatinga e ele não tivesse que recuperar o andróide, sairia dali rapidinho. Não tinha a mania de observar certas coisas.
Infelizmente seu cubo vermelho indicava que aquele era mesmo o andróide tido como seqüestrado, graças aos novos padrões para tipificar crimes. O cubo estava errado ao indicar que se tratava de um homem branco, entre trinta e quarenta anos e pesando uns cem quilos. O maldito computador havia falhado mais uma vez em traçar um perfil psicológico. Ele iria desabilitar aquela função assim que abasse com aquilo.
- Pare com isso, senhora, Você está presa por seqüestrar essa peça.
Os dois se levantaram nus e assustados e Cristiano odiou como a nova série de quase-vivos (assim eles eram chamados agora) imitava os seres humanos nas mínimas imperfeições.
- Vistam-se venham comigo. Ele será levado de volta para o dono.
- Não iremos com você. Falou o andróide. A mulher estava assustada demais para falar.
-Não existe outra opção.
- Nós nos amamos. Você quer nos prender porque acha que ele me roubou e que eu sou uma máquina que sem direito a escolhas. Mas não sou. Eu posso amar e odiar. Sou quase um ser humano. Tenho direito a escolhas.
Cristiano achava aquilo tudo ridículo. Mas estava farto de correr atrás de andróides extraviados. Ser enviado para a caatinga era a primeira vez, mas aquela era a chance de fazer com que aquilo não se repetisse.
- Afastem-se daqui. Vocês não devem ser encontrados nos próximos dias.
- Não voltaremos à cidade. Garantiu o andróide.
- Melhor pra você.
O caminho de volta foi tão difícil quanto a ida. Cristiano lamentava ter deixado o andróide inteiro, mas com corte ele seria destruído por um touro selvagem ou seus circuitos derreteriam no calor do sertão. Lamentava pela mulher ter que sofrer um destino igual, mas ela tinha feito sua escolha.
Entrou no carro e deu partida, seguindo exatamente o que dizia o manual. Com um pouco de sorte aquela seria a última vez que andava em um carro com motor a explosão e dirigia em uma estrada antiga.
Agora era chegar em casa, dormir e rezar para não ser chamado nos próximos três dias.
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No Mar de Pajuçara
Mergulhar no mar de Pajuçara. Houve um tempo que isso não era um crime. Duzentos anos atrás esse era um prazer comum, mas isso foi antes do grande maremoto e das águas dos oceanos não estarem contaminadas com o expurgo das antigas usinas nucleares.
Cristiano nasceu trinta anos depois do acidente e nunca tinha visto ninguém tomar banho no mar. Em cidades costeiras, como Maceió, construíram grandes piscinas que limpava uma parte da água do mar e permitia que as pessoas se divertissem naquele pequeno espaço.
Ele não devia estar ali. Deveria estar caçando andróides extraviados, ou impedindo que outras pessoas fizessem o que ele estava fazendo. Mas isso não importava, não no seu aniversário.
Sabia que estava sujeito há câncer por estar tomando banho ali, mas achava que havia vivido o suficiente, pelo menos era assim que pensava nos últimos trinta anos. Cento e setenta anos vivendo do coquetel fornecido gentilmente pelo governo eram o bastante.
Eles controlaram a doença e a velhice, mas a morte não foi vencida como esperava, não havia imortais. Por isso as pessoas continuavam perdendo quem amavam e com o tempo muitos ficavam sós, sem motivos para continuarem numa existência tão longa.
Em mais um aniversário só, Cristiano gostaria de tomar a decisão que muitos tomavam e que era extremamente proibido. Mas tudo o que conseguia era tomar banho na praia.
Bastaram apenas dez minutos para que dois policiais chegassem até uma distância segura e falassem pelo alto-falante.
- Por favor, senhor. Saia da água. O senhor está correndo risco de morte.
Outra pessoa teria obedecido. A cada ano as pessoas se tornavam mais obedientes. Graças a isso o mesmo governo estava no poder há mais de duzentos anos e não havia ninguém para questioná-lo. Todo mundo só queria viver pra sempre e sem preocupar com muitas coisas.
- Por favor, senhor...
Cristiano apenas os ignorou. A polícia nem usava mais armas, não iriam fazer nada contra ele se o banho continuasse. Ele sabia disso porque foi assim que ele foi treinado, e normalmente o que estava no manual era o bastante.
Os policiais podiam pedir reforços e agir mais energicamente, mas naquele fim de tarde haveria um jogo de futebol e ninguém queria perder a final.
Voltou a ficar sozinho enquanto era observado de longe por cidadãos indignados com aquela atitude. Ninguém deveria desobedecer ao grande governo.
Cristiano gostaria de ser punido de forma letal por aquele crime. Cento e setenta anos eram mais do que ele gostaria de suportar. O mundo apenas ficava mais velho e menor. E ele, sozinho.
A tarde se foi e a água ficou mais fria. Ele saiu do mar, vestiu-se e foi escoltado por dois andróides para a delegacia.
No caminho se desejou um feliz aniversário, e o presente de poder descansar daquela vida.
Talvez o mar tenha trazido a última esperança possível para um lugar onde não acontecia mais nada.
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011
PROCURANDO JANELAS
Passos firmes para o quarto.
Decidido abri a porta.
Senti o ar diferente.
Venci o medo e entrei.
Impiedosa a porta se fechou.
Um baque forte atrás de mim.
E uma escuridão doente.
Desesperado eu gritei.
Agora tateio em busca da saída.
Na escuridão não o que ver.
A porta fechou e não vejo uma réstia.
Tropeço no chão, pulo sobre a viga.
Sinto a escuridão me vencer.
Procurar janela é tudo o que me resta.
Decidido abri a porta.
Senti o ar diferente.
Venci o medo e entrei.
Impiedosa a porta se fechou.
Um baque forte atrás de mim.
E uma escuridão doente.
Desesperado eu gritei.
Agora tateio em busca da saída.
Na escuridão não o que ver.
A porta fechou e não vejo uma réstia.
Tropeço no chão, pulo sobre a viga.
Sinto a escuridão me vencer.
Procurar janela é tudo o que me resta.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Fique Furioso
Cuspa toda sua fúria.
Grite para o alto.
Bata no peito.
Chore escond0ido
Ou dirija com os olhos úmidos.
Não importa.
Destile seu ódio.
Contra Deus e o mundo.
Mas não esqueça
Que não há outro culpado.
Você não é a vítima.
Ponha pra fora sua fúria.
Fique cego de dor.
Chore um pouco antes de dormir.
Mas não esqueça:
Amanhã é outro dia.
Então se recomponha
Perdoe-se.
E lute com a mente em paz.
Fique furioso por hoje.
Mas seja um vencedor amanhã.
Quando voltar a respirar.
Grite para o alto.
Bata no peito.
Chore escond0ido
Ou dirija com os olhos úmidos.
Não importa.
Destile seu ódio.
Contra Deus e o mundo.
Mas não esqueça
Que não há outro culpado.
Você não é a vítima.
Ponha pra fora sua fúria.
Fique cego de dor.
Chore um pouco antes de dormir.
Mas não esqueça:
Amanhã é outro dia.
Então se recomponha
Perdoe-se.
E lute com a mente em paz.
Fique furioso por hoje.
Mas seja um vencedor amanhã.
Quando voltar a respirar.
sábado, 27 de agosto de 2011
O Peso de Cada Um
Tropeça o gigante.
Tem um fardo nas costas
O peso de uma pedra
Um mundo cheio de vida.
Que não lhe pertence.
Outros caminham perto dele.
Carregam outros mundos.
Mas conseguem brincar.
Jogam-nos para cima.
Chutam-nos embaixo.
E parece que não pesam.
Cada um com sua carga.
O gigante lamenta, tropeça e afunda.
De seu peso não livra.
E os passos são mais pesados.
Cai, suja-se, chafurda-se.
Mas com seu fardo continua.
Machucando-lhe as costas.
Acabando com seu humor
E eliminando sua vida.
Outros gigantes lhe ultrapassam.
Riem do colega desgraçado.
Prosseguem.
Ele gostaria de saber para onde.
Embora afundando.
Jamais consiga chegar.
Tem um fardo nas costas
O peso de uma pedra
Um mundo cheio de vida.
Que não lhe pertence.
Outros caminham perto dele.
Carregam outros mundos.
Mas conseguem brincar.
Jogam-nos para cima.
Chutam-nos embaixo.
E parece que não pesam.
Cada um com sua carga.
O gigante lamenta, tropeça e afunda.
De seu peso não livra.
E os passos são mais pesados.
Cai, suja-se, chafurda-se.
Mas com seu fardo continua.
Machucando-lhe as costas.
Acabando com seu humor
E eliminando sua vida.
Outros gigantes lhe ultrapassam.
Riem do colega desgraçado.
Prosseguem.
Ele gostaria de saber para onde.
Embora afundando.
Jamais consiga chegar.
domingo, 11 de abril de 2010
Os Dragões
O ruído forte de aviões voando mais baixo que o normal deixou todo mundo assustado. Estavam acostumados com bombardeiros, aviões de reconhecimento e outros veículos aéreos mais ou menos ameaçadores, mas a altitude era uma novidade. Todos temeram que as bombas começassem a desabar naquele momento, como uma chuva maldita.
A menina que brincava com as nuvens percebeu o quanto o céu pode se tornar ameaçador de uma hora para outra, como aquela benção de Deus pode virar repentinamente uma maldição dos homens.
Ela não conhecia os aviões, mas sua mãe a ensinou que deveria fugir deles assim que ouvisse seus motores. Ela falou que eram dragões demoníacos que cuspiam fogo em quem encontrava pelo caminho.
A imagem fantasiosa possuía a didática suficiente para que a menina corresse cada vez que os ouvisse. Nunca os vira cuspindo fogo, mas imaginava como fosse e embora sua visão fosse menos terrível que a realidade, era o suficiente para teme-los e correr deles.
Mas daquela vez os aviões voaram mais baixos e a menina entrou em pânico.
Temeu que os monstros alados de sua imaginação lhe seqüestrassem como em seus sonhos e a levassem para bem longe de sua família. Sabia que aquele era o momento de fugir mas suas pernas fraquejaram e ela acabou caindo no chão, incapaz de se mexer.
- O Dragão vai me comer. Era tudo o que conseguia gritar, como se alguém pudesse parar para ajuda-la naquele momento.
De repente o dia que começara como um sonho estava se transformando no maior pesadelo que aquela menina já teve e o pior era que não podia acordar e esquecer tudo.
Durante cinco minutos chorou e gritou, impotente no chão, com os olhos fechados como se o fato de não ver os aviões pudesse afasta-los
Felizmente o ataque não começou daquela vez. Era apenas um aviso do inimigo, para que ninguém fosse pego de surpresa. Como se estivessem marcando a hora para matar a todos, já que ninguém ali poderia fazer nada para se defender se fosse atacado.
A menina continuou sentada no chão até quando os aviões foram embora.
Conseguiu levantar-se sozinha e embora ainda soluçasse muito e nem enxergasse direito por causa das lágrimas, conseguiu dirigir-se pra casa.
Ela sabia que tinha que chegar o quanto antes, senão seria devorada pelos dragões.
E eles estavam prontos para voltar ainda naquele dia.
A menina que brincava com as nuvens percebeu o quanto o céu pode se tornar ameaçador de uma hora para outra, como aquela benção de Deus pode virar repentinamente uma maldição dos homens.
Ela não conhecia os aviões, mas sua mãe a ensinou que deveria fugir deles assim que ouvisse seus motores. Ela falou que eram dragões demoníacos que cuspiam fogo em quem encontrava pelo caminho.
A imagem fantasiosa possuía a didática suficiente para que a menina corresse cada vez que os ouvisse. Nunca os vira cuspindo fogo, mas imaginava como fosse e embora sua visão fosse menos terrível que a realidade, era o suficiente para teme-los e correr deles.
Mas daquela vez os aviões voaram mais baixos e a menina entrou em pânico.
Temeu que os monstros alados de sua imaginação lhe seqüestrassem como em seus sonhos e a levassem para bem longe de sua família. Sabia que aquele era o momento de fugir mas suas pernas fraquejaram e ela acabou caindo no chão, incapaz de se mexer.
- O Dragão vai me comer. Era tudo o que conseguia gritar, como se alguém pudesse parar para ajuda-la naquele momento.
De repente o dia que começara como um sonho estava se transformando no maior pesadelo que aquela menina já teve e o pior era que não podia acordar e esquecer tudo.
Durante cinco minutos chorou e gritou, impotente no chão, com os olhos fechados como se o fato de não ver os aviões pudesse afasta-los
Felizmente o ataque não começou daquela vez. Era apenas um aviso do inimigo, para que ninguém fosse pego de surpresa. Como se estivessem marcando a hora para matar a todos, já que ninguém ali poderia fazer nada para se defender se fosse atacado.
A menina continuou sentada no chão até quando os aviões foram embora.
Conseguiu levantar-se sozinha e embora ainda soluçasse muito e nem enxergasse direito por causa das lágrimas, conseguiu dirigir-se pra casa.
Ela sabia que tinha que chegar o quanto antes, senão seria devorada pelos dragões.
E eles estavam prontos para voltar ainda naquele dia.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Ao Homem-Alado
O homem-alado perdeu as asas.
Para onde ele vai agora?
Como alcançar o céu, estando mutilado?
Como andar, depois que reinou no ar.
O homem-alado é apenas uma sombra.
O resto de algo que já belo e poderoso.
Não passa de uma lembrança doce e triste.
Que olha para o céu, desconsolado.
O homem-alado foi destruído há tempos.
Mas ninguém notou suas asas quebradas.
Até que ele abriu em uma tarde fria.
Os membros rasgados por lâminas impiedosas.
Então muitos choraram por ele.
Mas suas lágrimas sempre serão mais fortes.
Pois tem a força de uma dor e de um grito
De alguém que já teve o céu como estrada.
Para onde ele vai agora?
Como alcançar o céu, estando mutilado?
Como andar, depois que reinou no ar.
O homem-alado é apenas uma sombra.
O resto de algo que já belo e poderoso.
Não passa de uma lembrança doce e triste.
Que olha para o céu, desconsolado.
O homem-alado foi destruído há tempos.
Mas ninguém notou suas asas quebradas.
Até que ele abriu em uma tarde fria.
Os membros rasgados por lâminas impiedosas.
Então muitos choraram por ele.
Mas suas lágrimas sempre serão mais fortes.
Pois tem a força de uma dor e de um grito
De alguém que já teve o céu como estrada.
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A Mulher da Lagoa
Acordou-se cedo para olhar a lagoa. Não era nem cinco da manhã quando ele já estava enfrentando o frio da alvorada e observando aquelas águas que acompanharam sua vida por tanto tempo, aquelas águas que sonhava que o levariam para longe do pequeno povoado onde morava.
Sílvio estava com vinte e nove anos e desde o quinze sonhava com o dia de partir dali. Amava a natureza, amava aquela lagoa em que tinha brincando durante toda a sua infância e sobretudo os peixes que tinham sustentado sua família por tanto tempo. Mas não queria seguir a profissão de seu pai. Jamais quis. Seu sonho era sair de casa, de seu povoado e ganhar o mundo.
Mas desde os quinze anos que possuía sua canoa, desde os quinze anos que seguia os passos do pai sem querer e sem coragem de contar a ele. Sempre esperando o dia em que não estaria mais ali.
Durante catorze anos ele esperou pela sua grande chance. Vivendo uma vida de espera e frustrações. Dizia que ficaria ali até quando estivesse tudo pronto para sua partida, mas sempre protelava esse dia, sempre tinha um motivo pra ficar. Engolia sempre o seu sonho, olhava a lagoa, se resignava e seguia em frente, odiando sua vida e vendo as águas correrem. Nunca tivera coragem de seguir realmente seu sonho, por que seu medo era maior que sua obstinação. Sempre tivera medo de decepcionar a família e preferia ver a lagoa e viver cada dia mais frustrado e decepcionado consigo mesmo.
Já estava começando a acreditar que tudo seria assim para sempre quando as coisas começaram a mudar.
Era uma terça-feira quando ele viu uma mulher nadando nua na lagoa. Já estava acostumado com certos espetáculos naquelas águas. Não era raro flagrar os turistas usando drogas e transando nas margens da lagoa, como se a natureza quase ainda selvagem os convidasse a transgredirem a lei. Mas jamais vira uma mulher nadar nua e sozinha naquelas águas. Aquele lugar não era tão pacato a ponto dela não correr nenhum perigo com aquele ato.
Teve vontade de chamá-la, mas resolveu não fazer nada. Apenas admirou o espetáculo. E era mesmo um grande espetáculo. A ruiva de corpo escultural era capaz de fazer com que todos os pescadores do lugar ficassem estáticos como ele, durante horas.
Mas foi ela quem o chamou.
- Vem. A água está uma delícia.
Como resistir aquele convite? Ele tirou sua bermuda e entrou imediatamente na água.
Como se o conhecesse a mulher o abraçou e beijou todo o seu corpo, livrando-lhe de seu calção de praia. Sílvio, surpreso e totalmente envolvido com a situação, deixou que ela fizesse o que queria e logo os dois estavam fazendo na água o que ele tanto observara os turistas fazendo.
O encontro casual logo se transformou em um estranho namoro.
Sílvio jamais soube o nome dela e ninguém nunca a viu. Mas isso não incomodava muito. Passara a vida toda isolado demais para se importar com o mistério de sua namorada.
Envolveu-se com ela como jamais pensaria que se envolveria com alguém. Todo o medo que tinha de se entregar desapareceu nos braços daquela mulher. Todas as dúvidas e hesitações que tivera tornavam-se inúteis perto dela.
E ele estava cada vez mais apaixonado.
Por isso estava ali no amanhecer, rezando para que ninguém o encontrasse, embora soubesse que naquele horário seria muito difícil isso acontecer.
No dia anterior ela o tinha convidado a fugir. Partiriam definitivamente dali para um lugar muito maior e ele teria uma vida maior que jamais teve. Daquela vez ele não tinha motivos para adiar sua partida. Não tinha mais motivos para ficar.
Agora ele estava à beira da lagoa esperando pela sua misteriosa namorada. Como ela havia prevenido estaria ali às cinco e ponto e ele não precisava levar consigo nada além de sua canoa.
Ele olhava para a lagoa com lágrimas nos olhos. Finalmente, depois de catorze anos ele estava partindo. Nada aconteceu como ele sonhava. Seus planos se foram com as águas da lagoa, mas as águas lhe trouxeram um plano novo.
Estava nervoso e morrendo de frio quando a mulher apareceu ao seu lado. Era a primeira vez que ele a via pisando em terra firme. Como nas outras vezes ela estava completamente nua e olhava para ele fixamente, como um olhar que ele não sabia exatamente o que significava.
- Está pronto?
- Estou.
Sem falar mais nada ela entrou na canoa e esperou que ele fizesse o mesmo.
Sílvio tirou suas roupas e entrou na canoa também. Não podia vacilar daquela vez.
E assim seguiram viagem. Ela sentada olhando para o sol ele remando monotonamente, em direção ao ponto onde a lagoa encontra o mar. Não sabia exatamente para onde estava indo, mas confiava naquela mulher bela e misteriosa que viajava ao seu lado.
Sílvio nunca mais foi visto por ninguém daquele povoado. Seu pai encontrou horas depois suas roupas abandonadas na margem da lagoa e alguns pescadores juraram que o tinha visto afastando-se dos arrecifes que embelezaram a pela costa marítima daquele lugar. Mas ninguém pode provar nada.
Silvio ganhou o mar e talvez tenha realizado seu sonho de uma maneira inesperada. O fato é que não estava sozinho e finalmente estava longe da lagoa e de sua vida de frustrações.
Sílvio estava com vinte e nove anos e desde o quinze sonhava com o dia de partir dali. Amava a natureza, amava aquela lagoa em que tinha brincando durante toda a sua infância e sobretudo os peixes que tinham sustentado sua família por tanto tempo. Mas não queria seguir a profissão de seu pai. Jamais quis. Seu sonho era sair de casa, de seu povoado e ganhar o mundo.
Mas desde os quinze anos que possuía sua canoa, desde os quinze anos que seguia os passos do pai sem querer e sem coragem de contar a ele. Sempre esperando o dia em que não estaria mais ali.
Durante catorze anos ele esperou pela sua grande chance. Vivendo uma vida de espera e frustrações. Dizia que ficaria ali até quando estivesse tudo pronto para sua partida, mas sempre protelava esse dia, sempre tinha um motivo pra ficar. Engolia sempre o seu sonho, olhava a lagoa, se resignava e seguia em frente, odiando sua vida e vendo as águas correrem. Nunca tivera coragem de seguir realmente seu sonho, por que seu medo era maior que sua obstinação. Sempre tivera medo de decepcionar a família e preferia ver a lagoa e viver cada dia mais frustrado e decepcionado consigo mesmo.
Já estava começando a acreditar que tudo seria assim para sempre quando as coisas começaram a mudar.
Era uma terça-feira quando ele viu uma mulher nadando nua na lagoa. Já estava acostumado com certos espetáculos naquelas águas. Não era raro flagrar os turistas usando drogas e transando nas margens da lagoa, como se a natureza quase ainda selvagem os convidasse a transgredirem a lei. Mas jamais vira uma mulher nadar nua e sozinha naquelas águas. Aquele lugar não era tão pacato a ponto dela não correr nenhum perigo com aquele ato.
Teve vontade de chamá-la, mas resolveu não fazer nada. Apenas admirou o espetáculo. E era mesmo um grande espetáculo. A ruiva de corpo escultural era capaz de fazer com que todos os pescadores do lugar ficassem estáticos como ele, durante horas.
Mas foi ela quem o chamou.
- Vem. A água está uma delícia.
Como resistir aquele convite? Ele tirou sua bermuda e entrou imediatamente na água.
Como se o conhecesse a mulher o abraçou e beijou todo o seu corpo, livrando-lhe de seu calção de praia. Sílvio, surpreso e totalmente envolvido com a situação, deixou que ela fizesse o que queria e logo os dois estavam fazendo na água o que ele tanto observara os turistas fazendo.
O encontro casual logo se transformou em um estranho namoro.
Sílvio jamais soube o nome dela e ninguém nunca a viu. Mas isso não incomodava muito. Passara a vida toda isolado demais para se importar com o mistério de sua namorada.
Envolveu-se com ela como jamais pensaria que se envolveria com alguém. Todo o medo que tinha de se entregar desapareceu nos braços daquela mulher. Todas as dúvidas e hesitações que tivera tornavam-se inúteis perto dela.
E ele estava cada vez mais apaixonado.
Por isso estava ali no amanhecer, rezando para que ninguém o encontrasse, embora soubesse que naquele horário seria muito difícil isso acontecer.
No dia anterior ela o tinha convidado a fugir. Partiriam definitivamente dali para um lugar muito maior e ele teria uma vida maior que jamais teve. Daquela vez ele não tinha motivos para adiar sua partida. Não tinha mais motivos para ficar.
Agora ele estava à beira da lagoa esperando pela sua misteriosa namorada. Como ela havia prevenido estaria ali às cinco e ponto e ele não precisava levar consigo nada além de sua canoa.
Ele olhava para a lagoa com lágrimas nos olhos. Finalmente, depois de catorze anos ele estava partindo. Nada aconteceu como ele sonhava. Seus planos se foram com as águas da lagoa, mas as águas lhe trouxeram um plano novo.
Estava nervoso e morrendo de frio quando a mulher apareceu ao seu lado. Era a primeira vez que ele a via pisando em terra firme. Como nas outras vezes ela estava completamente nua e olhava para ele fixamente, como um olhar que ele não sabia exatamente o que significava.
- Está pronto?
- Estou.
Sem falar mais nada ela entrou na canoa e esperou que ele fizesse o mesmo.
Sílvio tirou suas roupas e entrou na canoa também. Não podia vacilar daquela vez.
E assim seguiram viagem. Ela sentada olhando para o sol ele remando monotonamente, em direção ao ponto onde a lagoa encontra o mar. Não sabia exatamente para onde estava indo, mas confiava naquela mulher bela e misteriosa que viajava ao seu lado.
Sílvio nunca mais foi visto por ninguém daquele povoado. Seu pai encontrou horas depois suas roupas abandonadas na margem da lagoa e alguns pescadores juraram que o tinha visto afastando-se dos arrecifes que embelezaram a pela costa marítima daquele lugar. Mas ninguém pode provar nada.
Silvio ganhou o mar e talvez tenha realizado seu sonho de uma maneira inesperada. O fato é que não estava sozinho e finalmente estava longe da lagoa e de sua vida de frustrações.
João das Pedras
Quando lhe João trabalhava todos os dias quebrando pedras. Um trabalhando maçante, mas que ele fazia com todas as suas forças dia após dia, sem se importar com o tempo nem com mais nada, era um operário incansável.
O som da picareta era música para seus ouvidos, o brilho do metal já gasto era a mais bela imagem que ele conhecia,.
De tanto se dedicar ao seu trabalho ganhou o apelido de João das Pedras, mas ele não atendia por esse nome quando estava trabalhando, aliás não atendia por nome nenhum quando estava concentrado em quebrar suas pedras.
Só vivia para seu trabalho. Não tinha tempo para si, nem para a família, nem para amigos. perguntaram um dia porque ele trabalhava ali, porque não procurava algo melhor, porque se matava quebrando pedras, ele nem ouviu a pergunta, apenas o som de sua picareta interessava.
E assim prosseguia na sua rotina. João das Pedras em sua rotina incansável, nem reparava no mundo em sua volta, simplesmente quebrava pedras. Se um filho estava doente, ele quebrava pedras;. se tinha uma festa, quebrava pedras; se morria alguém, quebrava pedras. Se o mundo explodisse, ele estaria quebrando pedras.
Quebrava pedras e tinha sempre mais e mais para quebrar, sabia (e torcia por isso) que jamais acabaria.
Um dia ele voltou pra casa e a encontrou vazia. Estranhou, mas estava cansado demais para perguntar alguma coisa. Dormiu.
Quando amanheceu ele lembrou de chamar pela esposa e pelos dois filhos:
- Maria, Pedro, Pedrita... Ninguém respondeu. Ele iria chamar de novo, mas estava atrasado para seu trabalho.
Quando voltou para casa a história se repetiu, e no dia seguinte também, mas em sua mente ele só via suas pedras. Somente uma semana depois, foi que ele percebeu que estava sozinho, mas tinha que continuar seu trabalho apesar de tudo.
E o mundo continuou enquanto ele quebrava pedras e só tinha como recompensa o cansaço e uns poucos trocados no final do mês, que ele nem se importava em gastar ou não. Comparava alguma coisa para comer e juntava para realizar seu grande sonho: comprar uma nova picareta.
E assim o tempo passou. João simplesmente quebrava cada vez mais pedras.
Um dia ele ficou doente e o diagnóstico foi pedra nos rins, mas ele estava quebrado demais para se tratar e a solução foi quebrar as pedras com ainda mais força.
Um dia ele sofreu um acidente: uma grande pedra caiu em sua cabeça e João passou muitos dias em casa, sozinho, deitado em sua cama de pedra e comendo um pão duro como as pedras que ele quebrava.
Então ele morreu.
Enterraram-no num túmulo na mesma pedreira onde ele passara a vida trabalhando. Em sua lápide escreveram: “Aqui Jaz um homem que tinha um coração de pedra”.
O som da picareta era música para seus ouvidos, o brilho do metal já gasto era a mais bela imagem que ele conhecia,.
De tanto se dedicar ao seu trabalho ganhou o apelido de João das Pedras, mas ele não atendia por esse nome quando estava trabalhando, aliás não atendia por nome nenhum quando estava concentrado em quebrar suas pedras.
Só vivia para seu trabalho. Não tinha tempo para si, nem para a família, nem para amigos. perguntaram um dia porque ele trabalhava ali, porque não procurava algo melhor, porque se matava quebrando pedras, ele nem ouviu a pergunta, apenas o som de sua picareta interessava.
E assim prosseguia na sua rotina. João das Pedras em sua rotina incansável, nem reparava no mundo em sua volta, simplesmente quebrava pedras. Se um filho estava doente, ele quebrava pedras;. se tinha uma festa, quebrava pedras; se morria alguém, quebrava pedras. Se o mundo explodisse, ele estaria quebrando pedras.
Quebrava pedras e tinha sempre mais e mais para quebrar, sabia (e torcia por isso) que jamais acabaria.
Um dia ele voltou pra casa e a encontrou vazia. Estranhou, mas estava cansado demais para perguntar alguma coisa. Dormiu.
Quando amanheceu ele lembrou de chamar pela esposa e pelos dois filhos:
- Maria, Pedro, Pedrita... Ninguém respondeu. Ele iria chamar de novo, mas estava atrasado para seu trabalho.
Quando voltou para casa a história se repetiu, e no dia seguinte também, mas em sua mente ele só via suas pedras. Somente uma semana depois, foi que ele percebeu que estava sozinho, mas tinha que continuar seu trabalho apesar de tudo.
E o mundo continuou enquanto ele quebrava pedras e só tinha como recompensa o cansaço e uns poucos trocados no final do mês, que ele nem se importava em gastar ou não. Comparava alguma coisa para comer e juntava para realizar seu grande sonho: comprar uma nova picareta.
E assim o tempo passou. João simplesmente quebrava cada vez mais pedras.
Um dia ele ficou doente e o diagnóstico foi pedra nos rins, mas ele estava quebrado demais para se tratar e a solução foi quebrar as pedras com ainda mais força.
Um dia ele sofreu um acidente: uma grande pedra caiu em sua cabeça e João passou muitos dias em casa, sozinho, deitado em sua cama de pedra e comendo um pão duro como as pedras que ele quebrava.
Então ele morreu.
Enterraram-no num túmulo na mesma pedreira onde ele passara a vida trabalhando. Em sua lápide escreveram: “Aqui Jaz um homem que tinha um coração de pedra”.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Nossa Procura
Procuramos Deus no infinito.
E Não encontramos na semente.
Procuramos Deus no sucesso
E não encontramos na vida.
Esperamos sempre um grande milagre.
E não percebemos as pequenas intervenções.
Perguntamos por Deus quando há guerra
E ignoramos nossos dias felizes.
Chamamos por Deus na nossa dor.
E esquecemos dos pequenos prazeres.
Procuramos por Deus para chorar.
E Lhe negamos um pequeno sorriso.
Procuramos por Deus todos os dias.
Mas estamos sempre de olhos fechados.
Onde está Deus?
Onde está Deus?
E Não encontramos na semente.
Procuramos Deus no sucesso
E não encontramos na vida.
Esperamos sempre um grande milagre.
E não percebemos as pequenas intervenções.
Perguntamos por Deus quando há guerra
E ignoramos nossos dias felizes.
Chamamos por Deus na nossa dor.
E esquecemos dos pequenos prazeres.
Procuramos por Deus para chorar.
E Lhe negamos um pequeno sorriso.
Procuramos por Deus todos os dias.
Mas estamos sempre de olhos fechados.
Onde está Deus?
Onde está Deus?
domingo, 22 de novembro de 2009
Quando a Porta Fechar
Quando a porta fechar não grite.
O eco te enlouquece.
Não existem palavras mágicas
Para desmanchar a escuridão
Quando a porta se fechar
Talvez não haja janelas.
Mas não morra encolhido no canto do quarto.
Encantado com as lamúrias
Dominado pelo desespero
Derrube as paredes, quebre o teto.
Mesmo que sua mão sangre.
Mesmo que a dor tente destruir teu corpo.
Não se acostume nem lamente.
Sobreviva.
O eco te enlouquece.
Não existem palavras mágicas
Para desmanchar a escuridão
Quando a porta se fechar
Talvez não haja janelas.
Mas não morra encolhido no canto do quarto.
Encantado com as lamúrias
Dominado pelo desespero
Derrube as paredes, quebre o teto.
Mesmo que sua mão sangre.
Mesmo que a dor tente destruir teu corpo.
Não se acostume nem lamente.
Sobreviva.
domingo, 25 de outubro de 2009
Não Estamos Em Guerra
Não estamos em guerra.
Apesar das armas que circulam nas ruas.
Das sangrentas batalhas nas ruas
E dos disparos chegando no céu.
Não estamos em guerra.
Apesar das mães desesperadas.
Dos ferimentos letais
E dos órfãos atônitos
Buscando em vão uma reposta.
Estamos em paz, tudo sob controle.
Apesar de ninguém saber para onde olhar.
A quem pedir socorro.
Quão forte se deve gritar
Quando as balas começam a voar?
Sim, estamos em país.
Somos um país seguro.
Não importa o número de corpos.
E o sangue que banha nossas ruas.
Apesar das armas que circulam nas ruas.
Das sangrentas batalhas nas ruas
E dos disparos chegando no céu.
Não estamos em guerra.
Apesar das mães desesperadas.
Dos ferimentos letais
E dos órfãos atônitos
Buscando em vão uma reposta.
Estamos em paz, tudo sob controle.
Apesar de ninguém saber para onde olhar.
A quem pedir socorro.
Quão forte se deve gritar
Quando as balas começam a voar?
Sim, estamos em país.
Somos um país seguro.
Não importa o número de corpos.
E o sangue que banha nossas ruas.
sábado, 19 de setembro de 2009
Num Quarto Estranho
Foi difícil abrir os olhos hoje. Sinto como se meu corpo todo não me obedecesse mais. A dor é a única coisa que faz com que eu sinta meus membros. É uma dor horrível que eu não sei fazer parar.
Mas a dor não é a única coisa que me incomoda aqui. O fedor me provoca ânsia de vômito. Lama, merda, sangue, urina, são tantos os odores que eu não sei identificar todos. O pior é saber que todos eles estão em mim e eu não sei como vieram parar no meu corpo.
Preciso de um banho urgentemente, não só para me limpar da sujeira, mas para me despertar. Sinto que a febre está se apossando de mim novamente e eu preciso me manter acordado, pelo menos para voltar pra casa.
Não faço a mínima idéia de onde estou. Só sei que é uma casa grande e que eu pareço estar em um escritório. Existe um computador passando uma proteção de tela que mostra milhares de fotos e várias fotografias espalhadas. Meu Deus! Também há um copro dilacerado de um garoto. Nem quero imaginar o que aconteceu com ele.
- Olá! Tem alguém por aqui?
Eu não devia ter gritado. Tive como resposta um gemido assustador de alguém que parece estar no cômodo ao lado. O som horrível foi suficiente para eu me trancar no escritório com o garoto morto. O fedor e imagem horrível do corpo em decomposição e coberto por moscas me parece mais agradável do que me encontrar com quem emitiu aquele gemido.
A porta está quebrada e não consegui trancar a fechadura. Mas consegui empurrar a mesa do computador até a porta. Espero que não tenham ouvido o com do monitor se espatifando no chão: não tive paciência para tirar o equipamento da tomada, mas acho que o garoto morto não fará nenhuma objeção a isso.
Agora é só esperar o som diminuir. Não tenho coragem de descobrir o que significa esses gemidos, ou melhor, não tenho coragem de confirmar minhas suspeitas.
Espero me manter vigilante por tempo suficiente, mas não acredito que vá conseguir. Só espero que não arrombem a porta antes de eu me acordar. Detestaria morrer sem saber o que me atingiu, mas o barulho cadenciado que estão fazendo no outro lado está me entorpecendo e eu não consigo parar de escutá-lo.
Simplesmente não consigo me controlar.
Mas a dor não é a única coisa que me incomoda aqui. O fedor me provoca ânsia de vômito. Lama, merda, sangue, urina, são tantos os odores que eu não sei identificar todos. O pior é saber que todos eles estão em mim e eu não sei como vieram parar no meu corpo.
Preciso de um banho urgentemente, não só para me limpar da sujeira, mas para me despertar. Sinto que a febre está se apossando de mim novamente e eu preciso me manter acordado, pelo menos para voltar pra casa.
Não faço a mínima idéia de onde estou. Só sei que é uma casa grande e que eu pareço estar em um escritório. Existe um computador passando uma proteção de tela que mostra milhares de fotos e várias fotografias espalhadas. Meu Deus! Também há um copro dilacerado de um garoto. Nem quero imaginar o que aconteceu com ele.
- Olá! Tem alguém por aqui?
Eu não devia ter gritado. Tive como resposta um gemido assustador de alguém que parece estar no cômodo ao lado. O som horrível foi suficiente para eu me trancar no escritório com o garoto morto. O fedor e imagem horrível do corpo em decomposição e coberto por moscas me parece mais agradável do que me encontrar com quem emitiu aquele gemido.
A porta está quebrada e não consegui trancar a fechadura. Mas consegui empurrar a mesa do computador até a porta. Espero que não tenham ouvido o com do monitor se espatifando no chão: não tive paciência para tirar o equipamento da tomada, mas acho que o garoto morto não fará nenhuma objeção a isso.
Agora é só esperar o som diminuir. Não tenho coragem de descobrir o que significa esses gemidos, ou melhor, não tenho coragem de confirmar minhas suspeitas.
Espero me manter vigilante por tempo suficiente, mas não acredito que vá conseguir. Só espero que não arrombem a porta antes de eu me acordar. Detestaria morrer sem saber o que me atingiu, mas o barulho cadenciado que estão fazendo no outro lado está me entorpecendo e eu não consigo parar de escutá-lo.
Simplesmente não consigo me controlar.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Torres Gemeas
O Pó.
A dor.
A explosão.
O ódio.
O sangue.
As torres foram ao chão.
Tudo soterrado.
O dinheiro.
O poder
A ganância
O progresso.
O status.
As torres foram ao chão.
Tudo soterrado.
A Intolerância.
A fé.
O fanatismo.
O rancor.
A vingança.
As torres foram ao chão.
Tudo soterrado.
A Arrogância.
As lágrimas.
O poder
A resistência.
O dinheiro.
O fanatismo.
O Grande
Os pequenos.
A surpresa.
O desespero.
Tudo soterrado.
As torres foram ao chão.
Tantos pularam.
Mas todos caíram.
Só restam as ruínas.
O ódio, dor e vingança.
As torres foram ao chão.
Mas muitos ainda cairão.
A dor.
A explosão.
O ódio.
O sangue.
As torres foram ao chão.
Tudo soterrado.
O dinheiro.
O poder
A ganância
O progresso.
O status.
As torres foram ao chão.
Tudo soterrado.
A Intolerância.
A fé.
O fanatismo.
O rancor.
A vingança.
As torres foram ao chão.
Tudo soterrado.
A Arrogância.
As lágrimas.
O poder
A resistência.
O dinheiro.
O fanatismo.
O Grande
Os pequenos.
A surpresa.
O desespero.
Tudo soterrado.
As torres foram ao chão.
Tantos pularam.
Mas todos caíram.
Só restam as ruínas.
O ódio, dor e vingança.
As torres foram ao chão.
Mas muitos ainda cairão.
A Puta Cega
Existe uma puta cega na esquina
Entre a avenida do peixe
E o beco beija-flor.
Desviando da multidão
Que esbarra nela todo dia.
A puta cega se guia pelo cheiro.
Quanto melhor, menor o preço.
Assim ela goza todo dia.
Enquanto escara nos seus clientes.
Mais caro professor.
Mais barato pro promotor.
De graça pro senador.
E jamais esbarra no mendigo.
A puta cega jamais estará satisfeita.
Sua bolsa não pode encher.
Mas ela trabalha todos os dias.
Batendo o ponto do seu jeito.
Esperando as migalhas
Dos melhores perfumes.
Entre a avenida do peixe
E o beco beija-flor.
Desviando da multidão
Que esbarra nela todo dia.
A puta cega se guia pelo cheiro.
Quanto melhor, menor o preço.
Assim ela goza todo dia.
Enquanto escara nos seus clientes.
Mais caro professor.
Mais barato pro promotor.
De graça pro senador.
E jamais esbarra no mendigo.
A puta cega jamais estará satisfeita.
Sua bolsa não pode encher.
Mas ela trabalha todos os dias.
Batendo o ponto do seu jeito.
Esperando as migalhas
Dos melhores perfumes.
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